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Bolinhos de Bacalhau

..........Andinho, prefeito de Arraial do Cabo, foi ao Rio de Janeiro, no DER (Departamento de Estradas e Rodagens) para tratar do asfaltamento da estrada que liga Arraial a Cabo Frio. Na volta passou em Niterói, encontrou um amigo e, em lugar do almoço, resolveram ir ao Bar de Mário do Caneco Gelado, que vende um dos melhores bolinhos de bacalhau do Brasil.

..........Chegaram lá um bolinho aqui, um suquinho ali, e, na hora de vir embora, o prefeito resolveu comprar uns quilinhos de massa pronta para fazer bolinhos em casa. O bar tem massa preparada para vender aos fãs do bolinho. Comprou um quilo para ele, outro para D. Risoleta (sua mãe) e mais um para o seu amigo Tilzinho (Presidente da ESAC) dividir com o pastor Erivelto.

..........Chegando em Arraial, Andinho passou na ESAC entregou a massa para Tilzinho e disse que metade era para o pastor. Sabendo que Tilzinho e Satiro (Também funcionário da ESAC) não podem ser convidados para o mesmo almoço porque faltam talheres; de casa, Andinho ligou para o pastor:

..........- Pastor Erivelto, eu deixei uma massa de bolinho de bacalhau com Titio (é assim que ele chama Tilzinho) a metade é sua, pegue com ele.

..........O pastor:
..........- Andinho, estou muito atarefado hoje, amanhã eu pego.

..........Andinho insistiu:
..........- Pastor, vá agora.

..........O pastor:
..........- Andinho, está em boas mãos.

..........No dia seguinte, foi o pastor à ESAC. Entrou na sala de Tilzinho e depois da Paz do Senhor, falou que viera buscar a massa do bolinho. Tilzinho abriu uma gaveta da sua mesa de trabalho, duas gavetas, três gavetas, folheou uns papeis que estavam em cima da mesa, depois olhou para o pastor e disse:
..........- Esse processo não está comigo.

..........O Pastor:
..........- Não falei de processo Tilzinho, eu estou aqui para pegar a massa do bolinho de bacalhau que Andinho trouxe pra gente!

..........Tilzinho recostou-se na cadeira e falou:
..........- Que bolinho, pastor! Que Bolinho! Desmancha-se na boca. E o danado tem um mau costume, depois que a gente come um, ele fica chamando o outro. Mas foi bom você tocar nesse assunto. Ontem, saí daqui exausto, Cheguei em casa, entreguei a massa à mulher, tomei banho e fiquei assistindo o Jornal Nacional. Não tem explicação para o que aconteceu. A mulher resolveu fritar bolinhos.

..........Eu fiquei sentado no sofá: um bolinho, Jornal Nacional, Jornal Nacional, um bolinho. Em determinado momento, vendo o prato vazio, gritei para a mulher trazer mais bolinho. Ela me respondeu de lá: “A massa acabou”! Aí um nome me veio à cabeça: pastor Erivelto! Mas já era tarde demais. Depois eu pedi muito perdão a Deus, mas naquela hora, eu senti raiva daquele Jornal Nacional que me distraiu ao ponto de eu esquecer a sua metade.

..........No mesmo silêncio que ouvira a história, o pastor abriu a pasta, retirou dela a Bíblia, colocou-a em cima da mesa, diante de Tilzinho, e falou apontando para o livro sagrado:
..........- Tilzinho, a palavra manda dividir o pão.

..........E ouviu de Tilzinho:
..........- Você tem razão, pastor, por causa dela, quase perdi minha noite de sono. Lá pelas tantas, com peso na consciência, levantei e folheei a Bíblia de frente para trás, de trás para frente. Do pão ela fala; porém, sobre o bolinho de bacalhau não diz uma palavra. Com essa certeza no coração, dormi como um anjo.

felix@ashama.com.br

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