REENCARNAÇÃO (II)


“Também há corpos celestes e corpos terrestres,
mas o brilho dos celestes difere do brilho dos terrestres.
Uma é a claridade do sol, outra a claridade da lua
e outra a claridade das estrelas;
e ainda uma estrela difere da outra na claridade.
Assim também é ressurreição dos mortos.”


(I Coríntios; cap. 15, v. 41, 42 e 43)

....O primeiro filho de Piajé estava com seis anos. Não pretendia ter mais filhos, um bastava. Uma noite teve um “sonho”. O cenário era um campo verde, de uma imensa propriedade. A princípio ficou confuso, piscou os olhos, mas as imagens continuaram à sua frente. Não era parte integrante delas, agia como um observador a distância. À sua esquerda, um casarão enorme erguia-se entre construções menores, rodeadas por árvores frutíferas. Todas as casas pintadas de branco e, apesar de não estarem próximas, podia ver que eram bem antigas pelas placas de limo verde e manchas cinzentas de fungos espalhadas sobre os telhados.

....Em sua mente os pensamentos remexiam-se. E dessa ressurreição da memória veio-lhe a sensação de que aquela propriedade lhe pertencera numa região da Espanha. Sentiu um aperto no peito, preenchido por um sentimento estranho que não soube identificar se era tristeza ou saudades. Tudo lhe era familiar, pedaços, talvez, de outra vida que o tempo apagara.

....Seus olhos fixaram-se na casa principal. Ouviu seu coração bater diferente: mais forte, mais rápido, como se pressentisse algum acontecimento importante. Intrigava-o a convicção de que conhecia as pessoas que ali residiam. Uma enxurrada de imagens invadiu-lhe a mente. Sobrepunha-se uma a outra, o que não o ajudavam, contribuíam para lhe aumentar a confusão mental e a ansiedade em encontrar o motivo de ter sido levado àquele local. No alpendre da casa principal viu surgir uma jovem, e não se surpreendeu ao vê-la caminhar em sua direção. Não estava só, fazia-se acompanhar por um rapaz. Ao chegarem mais próximos, embaralhou-se no esforço para compreender o que lhe parecia impossível: Ela não caminhava. Deslizava sobre a grama ao lado do seu companheiro, como se fossem transportados por mãos invisíveis. Comparou o que via a uma projeção holográfica dos filmes de ficção espacial. As imagens eram de uma nitidez capaz de causar inveja aos fabricantes dos mais sofisticados televisores do nosso mundo ou qualquer outro veículo de reprodução de imagem que conhecemos. Aquele mundo apresentava-se, para o observador, bem mais real do que o nosso.

....A moça morena, de beleza invejável, trajava uma roupa simples de gente do campo. O vestido de um tecido leve, ornamentado com flores pequeninas, realçava-lhe a graça e harmonizava-se com a leveza do seu corpo. Ela o olhava com muito amor. Havia doçura no sorriso e felicidade no rosto.

....Os cabelos negros e lisos caiam-lhe, tal qual um manto, além dos ombros. Nos olhos vívidos e belos, as pupilas negras cintilavam dizendo-lhe do prazer de reencontrá-lo. Ele sentiu simultaneamente amor, saudade e tristeza. Mas todos esses sentimentos foram menores do que o novelo de emoções que aquele encontro provocava. Ela o amava muito, podia ver isso. Tinha plena consciência de que a conhecia e amava, mas não lembrava do seu nome.

....O seu acompanhante era um moço louro de cabelos encaracolados, com os braços cruzados sobre o peito. Trajava uma espécie saiote de linho fino com as extremidades bordadas em fios dourados. A roupa lembrava a elite romana do antigo império. Embora se vestindo como um romano, Piajé sabia que ele era de origem gaulesa. Os olhos do jovem estavam cravados em Piajé, que viu muito ódio neles. A sensação que teve foi de que aquele moço fizera um esforço grande para comparecer ao encontro. Viera a contragosto.

....O louro o odiava, eram inimigos, mas por quê? Não sabia. O mistério seria decifrado anos mais tarde. O casal ficou parado diante dele alguns segundos, depois a imagem foi recuando. À medida que o quadro se afastava, a jovem sorria e acenava, como se dissesse até logo. Os olhos do rapaz continuavam cravados nele sem esboçar outro sentimento que não fosse raiva, arrogância e contrariedade.

....Piajé acordou, o dia amanhecia. Levantou-se, foi à varanda, deitou-se na rede e ficou um bom tempo tentando decifrar o sonho esquisito. Quando se lembrava do jovem ficava triste, sentia raiva; em compensação, a imagem da moça enchia-o de felicidades. As emoções contraditórias e confusas acompanharam-no por muitos dias, até o sonho cair no esquecimento.

....Um ano se passou. Um dia sua mulher disse-lhe que estava grávida. Como alternava entre pílula e tabela, convencera-se de que errara a conta. No sexto mês de gravidez, ele estava dormindo e teve a sensação de que saía do corpo. De repente, estava sentado numa roda entre pessoas estranha, e uma criança morena lhe foi mostrada. Era um bebê, pelo tamanho, possivelmente recém-nascido ou com poucos dias de vida. Ficou muito feliz ao ver criança. Mostraram-lhe ainda que ele iria jogar futebol(¹). A criança seria apaixonada por bola. Três meses depois nasceu um menino moreno que chamou de Júlio. Quase dois anos mais tarde veio o terceiro filho. Uma criança loura de cabelos cacheados. Os dois garotos, conquanto diferentes fisicamente, eram muito bonitos. O terceiro, chamou-o Rogério.

.... Estavam com quatro e dois anos, respectivamente, quando um certo dia, ao brincar com eles na sala, Piajé levantou-se para buscar outro brinquedo, ao voltar, os dois estavam abraçados rindo. Ao vê-los, rostos colados: o moreno e o louro, lembrou-se do sonho. Sentiu um impacto no peito e um pensamento explodiu em sua cabeça: “Meu Deus, o casal do meu sonho! Era isso! Eles me foram apresentados antes do nascimento, havia um acordo entre nós!”

....Não continuou com a brincadeira, foi para o seu quarto e chorou muito. E começou a repassar a relação com os filhos. O moreno, muito apegado a ele. Era tanta a harmonia entre eles, que costumavam dizer que o Júlio era o seu filho preferido. Piajé sabia que não era, amava os três igualmente. O Júlio, do Raio do AMOR, relacionava-se diferente com as pessoas. Por exemplo, quando adolescente, nunca pediu dinheiro ao pai. Agia assim: aproximava-se dele dava uns beijos, começava a contar umas histórias – qualquer conversa fiada, porque o que pretendia com conversa e os beijos era anestesiar o pai - e ia apalpando o bolso para descobrir onde estava a carteira. Pegava-a retirava o que queria e a recolocava no bolso. O que as pessoas não entendiam é que Piajé via no comportamento do segundo filho, o exercício da sedução e os resquícios da sua encarnação feminina. E durante a operação “assalta bolso com beijos”, ele dava muitas gargalhadas. Às vezes o filho perguntava: “Por que você está rindo?” O pai respondia: “Por nada.”

.... O Rogério com tendências do Primeiro Raio (Vontade), chegava a certa distância do Pai, de cara fechada e falava: “Me dá um dinheiro.” Raríssimas vezes ouviu um não. Mas quando acontecia, retrucava “Se fosse para Júlio, você dava.” Por conta desse sentimento de antagonismo entre os dois, ele sempre procurava agradar ao terceiro filho.

....Piajé tinha consciência de que precisava acertar alguma coisa de vidas passadas com Rogério. Somente com sua mulher confidenciou a história do sonho, e que o Júlio iria jogar futebol. Disse-lhe inclusive que ele sairia do país por conta dessa atividade.

....m. Félix

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